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Entendimento regado com comida q.b.

  • Florbela Caetano
  • 24 de abr. de 2018
  • 4 min de leitura

Se alguns acreditam que a comida é o combustível do corpo humano, também é certo que os alimentos acendem o rastilho da criatividade. Quando esta se propõe a simplificar o mundo, frequentemente junta dois universos distintos. E, ainda mais frequentemente, um dos mundos é… comida.

Deus foi pioneiro nesta união, já que sempre soube que o pecado de Eva não seria comer a maçã, mas sim abrir os olhos para a maldade. Desde então, através de analogias (com uma boa dose de troca de ideias, temperada com insights do quotidiano), criam-se deliciosos menus de destreza intelectual. Quer seja na política, na publicidade ou na tecnologia.

https://www.youtube.com/watch?v=HqBaZmUvcOw

Aperitivo: batatas fritas e amendoins – Entender os meandros da política e da economia afigura-se uma tarefa difícil. Contudo, de vez em quando, lá surgem uns soundbytes que clarificam a posição dos homens que comandam os destinos da sociedade. E as analogias usadas são um bom indicador do carácter de quem nos fala. Para o bem e para o mal.

Recentemente, o ex-secretário permanente do departamento do Comércio Internacional, Martin Donelly, defendeu que a Grã-Bretanha deveria fazer um acordo para se manter na união aduaneira, após o Brexit. Caso contrário, seria como “trocar uma refeição de três pratos por um pacote de batatas fritas".

Donelly preza as relações comerciais com a União Europeia e não é o único político a recorrer a comida para dizer o que pensa. O republicano Mike Huckabee compara os refugiados sírios a um pacote de amendoins com veneno, que nunca daríamos aos nossos filhos… Bem, o humorista Trevor Noah explica tudo:

Prato principal: esparguete e sumo de laranja – Não é estranho encontrarmos analogias no mundo publicitário. Afinal de contas, a analogia é uma técnica criativa. Mas há anúncios que a utilizam de forma surpreendente. Os exemplos que se seguem provam que a publicidade não se resume a convencer-nos a comprar: espelha as nossas inquietações quotidianas e molda atitudes.

É sabido que o cabelo tem um papel importante no enquadramento do rosto. Dias há em que uns caracóis combinam com a ocasião. Noutros momentos, o contexto pede fios retos. Para nos ajudar na adaptação, a marca Braun criou uma placa para o cabelo. Com este produto, fusilli transforma-se em esparguete. Porque não nos apetece a mesma massa todos os dias, pois não?

Uma laranja cortada com uma faca afiada e depois espremida criou o “cocktail-massacre” mais engenhoso da história dos spots de televisão. A laranja era, na verdade, Timor, dividida entre a parte pertencente à Indonésia e a área de Timor Leste. Em poucos segundos, a preparação do sumo de laranja tornava claro que os indonésios estavam a massacrar os timorenses. Quem fizesse férias na Indonésia financiava o terror. Simples mas habilidoso, o anúncio português trouxe o primeiro Leão de Cannes em televisão para o nosso país.

Sobremesa: biscoitos e cumprimento ao chef – A tecnologia é uma das áreas da sociedade em que as mudanças são mais vertiginosas. Repleta de inovações e jargão próprio, degustamos melhor a terminologia digital quando esta se aproxima da cozinha.

A blogger Tara-Tamiko explica aos maketeers digitais para que serve cada uma das redes sociais. Assim, o Facebook assemelha-se a bolachas de chocolate, que vamos comendo aos poucos e repetindo, até que não reste nenhuma. Não trazem benefícios essenciais para o nosso organismo, mas sabem bem de vez em quando.

Confuso sobre o que faz o processador do teu computador? O fórum Ubuntu esclarece: um processador é como um chefe de cozinha – quanto mais rápido for, mais depressa terás a comida na mesa. Já um processador dual-core é “como ter uma cozinha com dois chefes, para que duas coisas possam ser preparadas ao mesmo tempo”. Assim parece simples, não é?

Dose extra: emoções – Curiosamente, quando queremos falar sobre comida, parece que não nos bastam as características dos alimentos. As receitas de culinária têm nomes que cheiram a poesia. E o discurso publicitário da indústria alimentar é salpicado com humor. Em suma, quando o nosso tema principal são os alimentos, é comum prepararmos um refogado de emoções.

É o caso dos anúncios publicitários das Pintarolas. Como explico no áudio que se segue, desde que estes bombons chegaram ao mercado que querem acabar com o tédio das crianças.

E já que estamos a marinar em emoções à flor da pele, claro que não nos podemos esquecer de adicionar a este menu a campanha “Tu não és tu quando tens fome”. Para vender chocolates Snickers, a marca recorda as indigestas alterações de humor que a fome acende.

Uma alimentação saudável é benéfica para o cérebro. Mas, por vezes, é o açúcar que resolve as quebras de inspiração. Se a comida dá cor aos momentos mais negros, também é verdade que aclara o caos que nos rodeia. Ao delinearmos o menu da nossa existência, podemos ser os clientes de restaurante que procuram alimentar-se, ou os chefs que cozinham a simplificação do mundo. Qualquer que seja a escolha, os alimentos estão ao nosso lado para nos ajudarem a viver e a melhor compreendermos a vida.

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